Recife, 9 de setembro de 2012.
É eu falei que só ia escrever na sexta, mas hoje estou eu
aqui de novo escrevendo e hoje é um domingo real. Não um falso domingo como foi
dia 7. Sábado chegaram meus livros que encomendei pela internet. Foi engraçado
quando o carteiro viu o numero na parede, certeza que pensou que havia algum
engano, não precisei nem ler a mente dele dessa vez. Estava estampado na cara
dele, foi ai que ele tocou o sino para ter certeza. Tive que agir, entrei na
mente dele e o coagi a deixar os livros escondidos numa moita aqui na frente.
Quando não havia mais luz no céu nem gente na rua fui busca-los.
Comprei uns livros de uma tal de Anne Rice. Achei engraçado
como ela relata a vida dos vampiros, naquele livro entrevista com vampiro. Se ela soubesse o que passamos realmente, o
que ela relatou não foi nem um quarto do que passamos. Os outros livros eram
apenas para aumentar meus conhecimentos na medicina, sei lá quando vou precisar
usar de novo meus bisturis.
Depois que terminei de ler fiquei no tédio, pra variar. Mas
o que fazer em época de tédio? Ler a mente das pessoas fica muito cansativo com
o passar do tempo, ler livros também, quando eles terminam, claro. Fora que eu
não preciso dormir então minha vida fica muito mais tediosa, até gostava de
dormir, mas ai veio essa maldição infeliz e desde então não tenho mais sono.
Minha sorte ainda é que eu tenho internet, que eu não sei usar muito bem, tá
certo, aprender as coisas na minha idade é muito mais difícil, principalmente
quando se viveu boa parte de sua vida num mundo sem essa internet.
Ah, eu costumava fazer muitas coisas na minha vida antes de
ser infectado por essa maldita doença. Tudo bem que até tirei várias vantagens
dela, e ainda tiro até hoje, mas na maior parte do tempo ela só me trouxe
miséria, tristeza. Uma das piores coisas na terra é ser imortal, isso te torna
impotente, desleixado. Tudo que você tem pra fazer, você pode fazer, mas
depois, tem uma eternidade para viver, uma eternidade para fazer o que tem que
ser feito. Conhecer pessoas e conviver com elas era o que eu mais gostava, hoje
em dia não posso chegar perto de um mero mortal. Não é a toa que gosto tanto de
ratos.
Eu moro no porão da minha casa, por isso as pessoas supõem
que ela seja abandonada. Alguns moleques já vieram aqui para usar um tipo
estranho de droga, eles chamam de pedra. É estranho, porque eu conheço o
Crystal Meth e pra mim, eles reagem de outro jeito. Eu já usei e não fiquei
como eles ficaram. Não gosto que invadam a minha casa, invadi os pensamentos
deles e criei uma falsa ilusão que aqui existiam assassinos. Acho que eles não
vêm mais aqui por isso. Ou sei lá.
Não gosto de chamar atenção, eu não saio na rua, evito
contato carnal. Minha casa é organizada, a parte de cima não, até porque é
assim que eu me alimento, mas onde moro é organizado. Tenho agua, luz,
saneamento. Não tem uma teia de aranha sequer na minha parede, sou um morto
organizado. Não é porque eu estou “morto” que minha casa precisa estar também,
né?
Queria que esses meus investimentos na bolsa me dessem um
pouco mais de grana. Só assim para eu poder voltar pro Canadá, eu não trabalho
mesmo. Saudades de Alberta, era frio lá. Recife é um forno. Gostava de andar na
neve, na época que morava lá tinha poucos vizinhos, e vizinhos cordiais, não
vizinhos feito os ingleses, eu odeio os ingleses. Eles me tornaram o que sou
hoje, são mais sujos que o homem que me tornou o monstro que sou hoje. Cansei,
não quero mais escrever por hoje.
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